sexta-feira, 22 de julho de 2016

"#130: À Flor da pele" e mais

Postado por Luciana Mara às 15:52:00 0 comentários Links para esta postagem
Em um dos meus surtos de "MELDELS! MEUS NEW ADULTS ESTÃO ACABANDO!", a Tati (do Clube das Chocólatras, nosso clube do livro, para quem não sabe) me sugeriu a leitura de À Flor da Pele.

E como estou encarando quase tudo do gênero, li...

À Flor da Pele conta a história da tímida Tenley Page e do tatuador Hayden Stryker. Tenley mudou de cidade para fazer mestrado e, para passar o tempo e distrair a cabeça, conseguiu um emprego na cafeteria da tia do Hayden. Acima da cafeteria, há um apartamento, que Tenley alugou. Deste apartamento, ela vê o estúdio em que Hayden e seus sócios tatuam e colocam piercings diversos. Ele é todo durão, mas fica amolecido e meio bobo toda vez que a vê.

E fica mais bobo ainda quando ela pede que Hayden tatue suas costas. INTEIRAS. Tudo para simbolizar seu grande segredo e sua grande perda. Perda que modificou tudo que ela tinha planejado.

Mas como todo NA, Hayden também é cheio de mistérios e segredos. 

E, por mais que a tração entre eles seja gritante, quando o passado bate à porta, é impossível ignorá-lo. 
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Vamos direto ao assunto. Usualmente, só estou resenhando livros que me marcam de alguma maneira, seja positiva ou negativamente. As histórias meia boca são comentadas em tempo real no histórico do skoob. Só quem me acompanha lá sabe o quanto eu sou a louca dos históricos. Fico de madrugada lendo e com o celular na mão para atualizá-lo.

À Flor da Pele não é uma obra prima, é apenas um livro legal. É uma história com aquela atração inicial louca e irresistível (até tolero atração louca, muito mais que amor à primeira vista) entre duas pessoas cheias de segredo. Se eles tivessem sentado na cafeteria e aberto o jogo, tudo seria resolvido em 10 páginas, masss... aí não teria livro, rs.

O livro ainda termina com um cliffhanger gigantesco. Então, se for encará-lo, aconselho que já tenha Marcados Para Sempre em mãos. Além dele, ainda tem uma história 0.5 e outra 1.5, que sinceramente, não fizeram falta. 

Tive alguma dificuldade com o excesso de cenas para maiores de 18 anos e MUITA dificuldade para achar charmoso um cara que tem piercing em tudo quanto é lugar. TUDO, mesmo. E numa dessas acabei caindo no Google e descobrindo que tem muita gente louca no mundo. Conselho: não procurem imagens envolvendo a palavra "apadravya" em público.  

BUT, o maior motivo para eu escrever esse post é falar que este livro me motivou. 

Há anos quero colocar um piercing na orelha. Quando era adolescente, minha mãe me amedrontou, dizendo que poderia dar queloides (e se você procurar, realmente há muitas orelhas deformadas por causa disso). 

Mas aí, vendo que a Tenley colocou n piercings numa boa, pensei, por que não?

Então comecei a procurar loucamente algum estúdio, até que encontrei o "LP Tatuagem e Piercing" no Facebook. Liguei para lá e custava 70 pilas, com o brinco. Não precisava agendar. Então dia 9 de julho criei coragem e fui.

O cara que me atendeu, o Vitor, tinha tantos furos quanto o Hayden (mas as semelhanças acabam aí, rs). Optei por um do tipo helix. Queria colocar um brinco de argola, mas ele disse que incomodaria num primeiro momento, que era melhor fazer a substituição quando o furo tivesse cicatrizado. Então daqui um mês vou lá trocar para ficar com a orelha igual a da Guilhermina Guinle, minha inspiração. Já tenho os outros três furos também. Fiz o terceiro com 15 anos. Há quase 15 anos. 100or! Crise dos 30 está chegando. 

Não doeu nada. Quando achei que ele ia furar, me disse que já estava limpando. Ele me ensinou como limpar e cortou chocolate, amendoim e carne de porco do meu cardápio por três semanas. Se eu soubesse antes de furar, teria desistido. Mentira. Não teria não. 

Orelha dos sonhos
Mas pra ser sincera, mesmo depois de quase duas semanas, ainda incomoda pra dormir. Não posso deitar em cima da minha orelha direita porque incomoda. 

E nessas minhas pesquisas, achei a orelha perfeita (foto ao lado). Assim que esse furo cicatrizar, quero fazer mais um, tragus dessa vez. Acho que não tenho espaço para três forward helix, mas quem sabe... #maridónpiranapeneira 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ao vento

Postado por Luciana Mara às 15:30:00 0 comentários Links para esta postagem
Já certifiquei. O conjunto de lingerie que escolhi para hoje é um dos melhores do meu guarda-roupa. 
Ninguém deve ser encontrada morta com uma calcinha de algodão velha e furada. Pelo menos, com a escolhida da vez poderei animar o legista que for responsável pela minha futura autópsia. 
Já são sete anos que faço o mesmo ritual, mas há apenas dois comecei a pensar na felicidade do legista. 
Há cinco anos não preciso mais fazer este mesmo trajeto de bicicleta. 
O fiz por dois anos, todo 12 de junho. 
Todo maldito dia 12 de junho, dos últimos sete malditos anos. 
Olho no meu relógio de pulso. São onze horas da noite. Faltam dez minutos para o relógio marcar novamente o mesmo horário do dia que a minha vida começou a desmoronar. 
Falta uma hora para esse dia de merda acabar. 
Estou ansiosa para qualquer uma das duas coisas. 
Ligo o rádio do carro. 
Cansei do cricrilar dos grilos que infestam a mata nas duas extremidades das ponte. 
Escolho a estação com a música mais agoniante e desesperadora que encontro. É assim que me sinto, nada mais adequado.
Estou sozinha. 
Completamente sozinha. 
Nenhum outro morador vem aqui à essa hora da noite, nesta data. Todos estão alegremente comemorando a data com os seus parceiros. Os que provavelmente passam por este caminho, já devem estar dormindo. 
A música acaba.
Meu carro está estacionado de forma que seus faróis iluminem o local exato do acidente. 
Abro a porta do motorista e saio. 
O vento leve do outono balança meu vestido preto que termina dois dedos acima do joelho.
Os pelos do meu braço se arrepiam com a temperatura amena.
Aciono o código para destravar meu celular e, como em todos os anos, marco dez minutos no temporizador do aparelho. 
Dez minutos é o tempo do universo decidir. 
Descalço as minhas sapatilhas vermelhas preferidas e as deixo no ponto exato da mureta da ponte onde subirei daqui dois minutos. 
Estou na velha ponte da cidade, que recebeu o nome do seu fundador em 1891. Ninguém mais a usa, desde que o trevo foi feito a dois quilômetros de distância. 
Durante o tempo todo que estou aqui, apenas um carro passou na rodovia com três faixas em cada sentido localizada abaixo da ponte. 
Os arredores são desertos. Só os moradores mais antigos da cidade utilizam esta ponte como atalho. Eles só a utilizam quando estão com pressa e querem economizar os dois quilômetros no volante. Eu não sou a favor dessa economia. Ela já me custou muito.
O certo era eu destruir este lugar. 
Atear fogo. 
Colocar alguns explosivos e jogá-lo pelos ares. 
Mas não consigo. Porque o Universo me chama todos dos malditos anos. Até que não chamará mais. Ele se despedirá de mim. E é este momento que eu aguardo.
Onze e dez da noite. 
Inicio o temporizador e coloco o celular dentro de um dos pés de sapatilha. 
Subo na mureta da ponte.
A mureta é estreita, mas acomoda meus pés com as unhas vermelhas perfeitamente feitas.
Olho para o meu ombro direito e vejo o dente-de-leão que tatuei assim que completei 18 anos. Para mim, ele não significa liberdade, esperança. Significa que basta um simples vento para tudo se desmoronar, se espalhar no mundo e desaparecer. 
Até onde as minhas vistas alcançam, nenhum carro se aproxima pela rodovia.
Fecho meus olhos. 
Sinto o vento me soprando, mas sem força suficiente para me fazer voar.
Levanto as mãos, ainda de olhos fechados, até a correntinha dourada que carrego no pescoço todos os dias. Há menos de três horas, coloquei a terceira aliança na corrente. 
Lembranças das minhas três pessoas preferidas no mundo.
Lembranças das minhas três pessoas preferidas no mundo que me abandonaram.  
Solto a correntinha, que cai novamente entre os meus seios e abro os braços.
Me equilibro na mureta.
Meus olhos permanecerão fechados até que o temporizador do celular apite. Ou até que eu caia na rodovia.
Não sei quanto tempo já se passou.
Sinto o cheiro de grama. 
Sinto o cheiro de chuva. 
Sinto o cheiro de grama molhada. 
Ouço os grilos. 
Sinto os pingos de chuva molharem os meus cabelos. 
A chuva se intensifica, assim como minha ansiedade. 
Meu cabelo começa a grudar no meu rosto.
O céu consegue chorar mais que eu. 
Os dez minutos se passaram. 
Nem o vento ou a chuva me levaram. 
Em milésimos de segundos a raiva me invade por estar abandonada. Puxo com força e arrebento a correntinha delicada. 
Desisto das lembranças. 
Abro os olhos. Jogo a correntinha e as alianças na rodovia abaixo de mim, ao mesmo tempo que avisto um carro se aproximando.
Espero que o motorista não tenha me visto e chame a polícia.
Não será a primeira vez. 
O Universo não quis que eu sumisse. 
Não hoje.
De novo. 
Então por mais um ano, ele me permite viver.
Desço da mureta e sento no asfalto, encostando-me na mureta onde nem a Morte me quis. Pelo sétimo ano consecutivo.  
Coloco as mãos no rosto e me permito chorar pela primeira vez, desde que eu soube que minha mãe tinha morrido, hoje de manhã.
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Ps: Minha tentativa 1 de escrever algo não meloso, rs. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

#129: November 9 (Colleen Hoover)

Postado por Luciana Mara às 07:00:00 0 comentários Links para esta postagem
De três coisas eu estava convicta.

Primeira, é impossível ler qualquer uma das histórias da Colleen Hoover sem desenvolver um panapaná louco no estômago e nós de marinheiros na garganta impossíveis de desfazer.
Segunda, havia uma parte de mim – e eu não sabia que poder essa parte teria – que queria adiar qualquer leitura dela, com medo de que meu estoque dessa maravilha acabe.
E terceira, eu estava incondicional e irrevogavelmente apaixonada por tudo o que essa autora toque.

Eu confesso. Fui fã de Crepúsculo. Assim que terminei a leitura da última página do primeiro livro (antes mesmo de estourar a febre no Brasil), eu abri na primeira e reli. Mas lá se vão 10 anos e eu tinha acabado de sair da adolescência, ou seja, eu tinha passe livre para o surto.

Adoro os livros da Sophie Kinsella e Marian Keyes, mas eu ainda tenho alguns sem ler. Não tenho por eles aquela necessidade de comprar em pré-venda e ler assim que lançam aqui. Não como já fiz com Crepúsculo, Harry Potter ou Fazendo meu Filme, por exemplo. 

Há tempos não sentia essa vontade louca, alucinada e descontrolada de ler mais de determinado autor. Ler tudo. Ler até cansar. Ler até me acostumar tanto com sua escrita que posso prever os acontecimentos antes de lê-los. 

Há muito tempo não tem um autor que estimule minha Becky Bloom interior como a Colleen Hoover. Eu sei que já está ficando repetitivoivoivo, mas se eu não puder falar das minhas paixões literárias como uma fã louca de qualquer boy band aos 15 anos, para que serve esse espaço? Vocês têm noção de que eu mandei um comentário um pouco desaforado em um blog porque a menina não gostou de um dos livros e contou mais do que deveria? Eu estou assim com essa autora. Então cuidado com o que vai falar comigo sobre suas obras. Brincadeira. Ou não.

Não satisfeita com os livros lançados no Brasil, eu comecei a pesquisar e achei dois livros traduzidos da autora: Confess (muito bom também) e November 9. 

Até então, Talvez Um Dia era meu preferido, mas eu nem sei mais. É tanta delicadeza, tanto cuidado, tantos segredos e descobertas que se você vier me perguntar qual livro deve ler da CH eu vou responder de madeira curta e grossa: "TODOS".
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November 9 conta a história da Fallon e do Benton. Aos 18 anos, eles se conhecem no último dia dela em LA e a atração entre os dois é imediata. Mas por mais que eles sintam que aquela relação pode ser especial, ela está com a viagem para NY marcada para aquele dia. Fallon vai correr atrás dos seus sonhos. Ela não pode mais adiar, não pode desistir. Porém, eles decidem passar aquele dia juntos. 

Ben, um estudante e aspirante escritor, vê naquele encontro a inspiração do romance que ele tanto deseja escrever. Mas um encontro não é o suficiente, então eles decidem se encontrar na mesma data, durante alguns anos, sem manter contato durante o resto do tempo, exceto dia 9 novembro. Será história suficiente para ele escrever seu romance? Será que eles não vão esquecer um do outro durante todo o tempo? Só lendo pra saber.

E se eu puder dar um conselho, digo: leia. Leia rápido. Se quiser o ebook, pergunte-me como*. 
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Quando li a premissa do livro, pensei de cara em "Um dia" do David Nicholls, mas há uma grande diferença entre as duas obras. "Um dia" conta o que acontece em um dia do ano, mas os protagonistas se cruzam o resto do tempo. Aqui não, eles não tem contato por telefone, e-mail, rede social, NADA.

E isso não faz o amor miojo que eu odeio ser ruim, pelo contrário, faz o relacionamento dos dois ser incrível! Você sente a saudade batendo em seu próprio peito após cada despedida. Você sente o ar saindo do pulmão a cada frase delicada. É desesperador. É angustiante. É apaixonante.

Os personagens são engraçados, determinados e cativantes. Por mais que uma hora ou outra ocorram decisões estúpidas, é impossível largar o pompom de líder de torcida e parar de torcer.

E o final? E o final, MELDELS! Você sofre. Você é esmagado. Eu joguei o tablet longe inúmeras vezes durante a leitura, porque estava agoniada demais para prosseguir.

Por mais que todos os livros da CH tenha uma carga dramática e emocional grande, eles são diferentes entre si, porém, tem um denominador comum: a arte. Seja por poesia, música, quadros, livros, ou por apresentar o texto em uma forma não convencional (Lado Feio do Amor, por exemplo), ela sempre incluiu um universo novo para você se deliciar. 

Posso dizer que mal terminei e já estou ansiosa para esse livro lançar aqui? Quero ler novamente!

Maconha, crack, heroína, cocaína são outros nomes dos livros da Colleen DIVA Hoover pra mim. Estou incondicional e irrevogavelmente viciada. 

Aprecie sem moderação!

ps: *Eu não sou a favor da pirataria. Minhas estantes cheias de DVDs e livros comprovam isso. Mas sou contra a abstinência da droga citada acima. HAHA

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Receita de um romance apaixonante

Postado por Luciana Mara às 15:40:00 0 comentários Links para esta postagem

Ingredientes:

  • 750g de um mocinho apaixonante/problemático
  • 500g de mocinha não sonsa
  • 1 segredo
  • Coadjuvantes interessantes à gosto
  • 1 dose cavalar de drama
  • Cenas fofas/românticas à gosto
  • Cenas cômicas/constrangedoras à gosto
  • 1 grande elemento surpresa
  • 1 carta bem romântica
  • 1 dose de lágrimas
  • Brigas à gosto
  • Essência de atração
  • 1 pitada de clichê
  • 1 bom epílogo 

Modo de preparo:
Coloque todo o conteúdo da mocinha em um bowl. Quanto maior a leseira da mocinha, mais desandado o resultado final. Misture à ela o mocinho apaixonante/problemático.  Se esta for a pitada de clichê, pode ser que um deles tenha um(o) namorado(a) mala e totalmente dispensável. Ignore-o(a). Ele(a) logo desaparecerá, não prejudicando a receita.

Também pode ser que a pitada de clichê seja que os dois se odeiem. Ou pior, que o amor dos dois seja como uma receita de miojo: fique pronta em três minutos. É muito comum, mas particularmente prefiro que o amor fique no fogo baixo, cozinhando lentamente. Quanto maior o tempo de preparação, maior o sabor do resultado final.

Aos dois, adicione um segredo. Nada acrescenta mais sabor do que um grande mistério. Acrescente também muita essência de atração. Quanto maior a quantidade, mais envolvente é o romance.

Mexa bem, até atingir uma consistência homogênea.

Misture coadjuvantes interessantes à gosto, daqueles que você quer saber mais após o fim da história. Quem sabe eles não podem render novas receitas? 

Adicione uma grande briga. Pode ou não ter separação entre o mocinho e a mocinha, mas é certo que nessa hora a receita desanda. Não se preocupe e acrescente o grande elemento surpresa, uma dose cavalar de drama, seguido de uma dose de lágrimas. Pode demorar um pouco para que a receita entre nos eixos, mas depois dessa etapa, com certeza ela entrará.

Não se esqueça de pincelar o resultado com cenas cômicas/constrangedoras. Quem for saboreá-la irá adorar sentir vergonha alheia. Essa etapa da receita sempre nos faz fechar o livro, respirar fundo e abri-lo novamente para encarar o momento.

Ah! Salpique cenas fofas/românticas à gosto durante toda a execução da receita. Ela fará com que o resultado final fique muito mais leve.

Uma linda carta sempre acrescenta um toque especial à mistura. Pode ser que com ela venha uma nova dose de lágrimas. Não se preocupe. Geralmente essas lágrimas são de emoção e são sempre bem-vindas.

Por fim, decore o resultado final com um lindo epílogo. Todo mundo fica mais feliz quando a história não termina quando termina. 

Aprecie sem moderação!

Tempo de preparo: Depende da habilidade do autor
Rendimento: Inúmeras porções.
Alguns resultados finais: Orgulho e Preconceito, Jane Eyre, Talvez um dia, As Batidas Perdidas do Coração, A Mentira Perfeita, A Voz do Arqueiro, Belo Desastre, Beleza Perdida, Lado Feio do Amor, O Chá do Amor, Isla e o Final Feliz, Fazendo o meu filme, A Flor da Pele, Um Caso Perdido, Fangirl, romances da Marian Keyes, entre outros.

E para você? Qual a sua receita?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Tudo o que poderia ter sido

Postado por Luciana Mara às 13:00:00 0 comentários Links para esta postagem
Observando-me no espelho acima do buffet da sala de jantar, concluo que as cinco horas que passei rodando no shopping valeram a pena. Aquele vestido cinza escuro tinha o caimento perfeito! Ressaltava os seios e os quadris na medida certa e, milagrosamente, parecia diminuir em vários centímetros a minha cintura. Um coque frouxo, um par de brincos de pérolas, um belo salto alto e uma make discreta nos olhos, mas um marcante batom vermelho, completavam o visual. 
Não sei o que as pessoas acham, mas quando uso uma cor vibrante nos lábios, me sinto poderosa. Em uma escala de 1 a 10 de autoconfiança, arrisco dizer que sou um 12.
E, definitivamente, o dia de hoje exige de um batom vermelho. 
Pego minha bolsa no sofá, as chaves do carro e saio do meu apartamento.
Eu não o vejo há 13 anos, desde o fatídico dia em que eu fiz uma escolha errada que mudou toda a minha história. 
Mas só percebi isso quando li o texto que ele escreveu.
Confesso que fiquei um pouco chocada quando recebi na minha casa uma caixa sem remetente ou qualquer coisa que identificasse quem a enviou. Meu choque triplicou quando a abri e conferi seu conteúdo. Nela estavam todas as minhas agendas da adolescência, onde eu contava todos os meus segredos. 
Quando me mudei, há um ano, pedi a minha irmã que se desfizesse delas. Não esperava que minhas agendas fossem ter um destino diferente da lata do lixo, que era onde eu achava que ela iria despejá-las. 
Sempre soube que ele tinha o dom das palavras, afinal, ele sempre escrevia minhas redações para o colégio. Eu era melhor com números, então nos completávamos. Mesmo sendo um ano mais novo que eu, cursávamos a mesma série, mas em escolas diferentes, então um sempre estava disposto à socorrer o outro. 
Eu vivia em sua casa, já que éramos vizinhos desde a infância. 
Minha irmã uma vez por ano me perguntava se eu já tinha me apaixonado por ele, mas éramos tão próximos, que para mim ele era o irmão homem que eu nunca tive. 
Mas eu sabia que a recíproca não era verdadeira. 
Sabia que ele era apaixonado por mim.
Desde sempre.
E talvez por isso, quando descobri que ele tinha passado em um processo seletivo para estudar em outra cidade, beijei seu primo mais velho, um que ele não se dava bem. Na sua frente. Na frente de toda a nossa família. 
Queria que ele entendesse que eu o estava libertando, para viver novas experiências longe de mim. Para viver amores loucos, histórias surpreendentes. Para aproveitar as oportunidades que bateriam à sua porta.
Eu segui meu caminho.
Ele seguiu o dele.
Seus pais se mudaram naquele ano e nunca mais tive notícias suas. Há muito tempo o procurava nas redes sociais, sem sucesso. Ele se escondeu durante todo esse tempo. 
Até o dia que aquela caixa chegou na minha casa e tudo mudou. 
Em cima de todas as minhas agendas, havia um livro. O título era “Tudo o que poderia ter sido” e tinha seu nome na capa, como autor. 
Abri a primeira página e li a dedicatória.

“Para a minha professora de matemática preferida,
Que por muito tempo foi o amor da minha vida”

Não dormi enquanto não terminei a leitura. 
Baseando-se no que eu havia escrito nas minhas agendas/diários, ele recontou a minha vida. Como minha vida teria sido. Com ele. 
E eu chorei, como não chorava desde a morte do meu pai.
Porque ao contrário do que queria para mim há 13 anos, agora eu queria tudo o que estava escrito ali. Cada carinho, cada palavra, cada viagem, cada momento.
Na última página, havia um endereço, uma data e um horário, escrito à lápis, com a caligrafia que ele escrevia as minhas redações. E era para esse destino que eu dirigia o meu carro. 
Por isso passei meu batom vermelho. Porque precisava estar confiante para o que me aguardava. 
Cheguei ao restaurante.
Assim que anunciei meu nome à hostess, ela me guiou no caminho até a mesa reservada, mas não foi necessário. Eu o reconheceria onde quer que o visse.
O mesmo sorriso fácil.
O mesmo brilho no olhar.
Logo que me aproximei, não me contive. O abracei.
Ele tinha o cheiro que eu recordava. Cheiro de banho tomado, refrescante.  
Quando dei um passo para trás, seus olhos estavam cheios d’água, reflexos dos meus.
 – Senti saudade. – Eu consegui dizer. 
 – Eu não – Ele percebeu minha feição chocada, pois logo acrescentou – porque você estava na minha cabeça o tempo inteiro.
Senti meu coração bater mais forte. 
Não seria possível recuperar o tempo perdido, mas poderíamos escrever novas memórias. Juntos. 
E não precisaria escrever em blogs ou agendas, porque ele era o ótimo escritor e nós dois juntos, poderíamos escrever nas páginas da vida, onde as palavras seriam levadas pelo vento, mas mantidas em nossos corações. 
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