terça-feira, 12 de julho de 2016

Ao vento

Postado por Luciana Mara às 15:30:00
Já certifiquei. O conjunto de lingerie que escolhi para hoje é um dos melhores do meu guarda-roupa. 
Ninguém deve ser encontrada morta com uma calcinha de algodão velha e furada. Pelo menos, com a escolhida da vez poderei animar o legista que for responsável pela minha futura autópsia. 
Já são sete anos que faço o mesmo ritual, mas há apenas dois comecei a pensar na felicidade do legista. 
Há cinco anos não preciso mais fazer este mesmo trajeto de bicicleta. 
O fiz por dois anos, todo 12 de junho. 
Todo maldito dia 12 de junho, dos últimos sete malditos anos. 
Olho no meu relógio de pulso. São onze horas da noite. Faltam dez minutos para o relógio marcar novamente o mesmo horário do dia que a minha vida começou a desmoronar. 
Falta uma hora para esse dia de merda acabar. 
Estou ansiosa para qualquer uma das duas coisas. 
Ligo o rádio do carro. 
Cansei do cricrilar dos grilos que infestam a mata nas duas extremidades das ponte. 
Escolho a estação com a música mais agoniante e desesperadora que encontro. É assim que me sinto, nada mais adequado.
Estou sozinha. 
Completamente sozinha. 
Nenhum outro morador vem aqui à essa hora da noite, nesta data. Todos estão alegremente comemorando a data com os seus parceiros. Os que provavelmente passam por este caminho, já devem estar dormindo. 
A música acaba.
Meu carro está estacionado de forma que seus faróis iluminem o local exato do acidente. 
Abro a porta do motorista e saio. 
O vento leve do outono balança meu vestido preto que termina dois dedos acima do joelho.
Os pelos do meu braço se arrepiam com a temperatura amena.
Aciono o código para destravar meu celular e, como em todos os anos, marco dez minutos no temporizador do aparelho. 
Dez minutos é o tempo do universo decidir. 
Descalço as minhas sapatilhas vermelhas preferidas e as deixo no ponto exato da mureta da ponte onde subirei daqui dois minutos. 
Estou na velha ponte da cidade, que recebeu o nome do seu fundador em 1891. Ninguém mais a usa, desde que o trevo foi feito a dois quilômetros de distância. 
Durante o tempo todo que estou aqui, apenas um carro passou na rodovia com três faixas em cada sentido localizada abaixo da ponte. 
Os arredores são desertos. Só os moradores mais antigos da cidade utilizam esta ponte como atalho. Eles só a utilizam quando estão com pressa e querem economizar os dois quilômetros no volante. Eu não sou a favor dessa economia. Ela já me custou muito.
O certo era eu destruir este lugar. 
Atear fogo. 
Colocar alguns explosivos e jogá-lo pelos ares. 
Mas não consigo. Porque o Universo me chama todos dos malditos anos. Até que não chamará mais. Ele se despedirá de mim. E é este momento que eu aguardo.
Onze e dez da noite. 
Inicio o temporizador e coloco o celular dentro de um dos pés de sapatilha. 
Subo na mureta da ponte.
A mureta é estreita, mas acomoda meus pés com as unhas vermelhas perfeitamente feitas.
Olho para o meu ombro direito e vejo o dente-de-leão que tatuei assim que completei 18 anos. Para mim, ele não significa liberdade, esperança. Significa que basta um simples vento para tudo se desmoronar, se espalhar no mundo e desaparecer. 
Até onde as minhas vistas alcançam, nenhum carro se aproxima pela rodovia.
Fecho meus olhos. 
Sinto o vento me soprando, mas sem força suficiente para me fazer voar.
Levanto as mãos, ainda de olhos fechados, até a correntinha dourada que carrego no pescoço todos os dias. Há menos de três horas, coloquei a terceira aliança na corrente. 
Lembranças das minhas três pessoas preferidas no mundo.
Lembranças das minhas três pessoas preferidas no mundo que me abandonaram.  
Solto a correntinha, que cai novamente entre os meus seios e abro os braços.
Me equilibro na mureta.
Meus olhos permanecerão fechados até que o temporizador do celular apite. Ou até que eu caia na rodovia.
Não sei quanto tempo já se passou.
Sinto o cheiro de grama. 
Sinto o cheiro de chuva. 
Sinto o cheiro de grama molhada. 
Ouço os grilos. 
Sinto os pingos de chuva molharem os meus cabelos. 
A chuva se intensifica, assim como minha ansiedade. 
Meu cabelo começa a grudar no meu rosto.
O céu consegue chorar mais que eu. 
Os dez minutos se passaram. 
Nem o vento ou a chuva me levaram. 
Em milésimos de segundos a raiva me invade por estar abandonada. Puxo com força e arrebento a correntinha delicada. 
Desisto das lembranças. 
Abro os olhos. Jogo a correntinha e as alianças na rodovia abaixo de mim, ao mesmo tempo que avisto um carro se aproximando.
Espero que o motorista não tenha me visto e chame a polícia.
Não será a primeira vez. 
O Universo não quis que eu sumisse. 
Não hoje.
De novo. 
Então por mais um ano, ele me permite viver.
Desço da mureta e sento no asfalto, encostando-me na mureta onde nem a Morte me quis. Pelo sétimo ano consecutivo.  
Coloco as mãos no rosto e me permito chorar pela primeira vez, desde que eu soube que minha mãe tinha morrido, hoje de manhã.
---
Ps: Minha tentativa 1 de escrever algo não meloso, rs. 

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigada pelo comentário!
Deixe seu endereço para eu retribuir a visita ;)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 

TOC Template by Ipietoon Blogger Template | Gift Idea