sábado, 1 de outubro de 2016

Trecho de "Tudo o que poderia ter sido"

Postado por Luciana Mara às 12:00:00

Aos seis anos, assim que Luísa aprendeu a escrever, fez uma lista no diário que acabara de ganhar de presente de natal da avó.
Ela fez a lista dos seus cinco maiores medos.

            1- Perder seus pais
            2- Aparecer de pijama na escola
            3- Ficar sozinha
            4- Brigar com o Augusto
            5- Barulho do vento

Aos dez, enquanto pensa na lista que ano após ano repete na primeira página da sua nova agenda e escuta o uivo do vento, a garota ouve batidas na janela do seu quarto.
O medo de número cinco tenta persuadi-la de se levantar e atender ao chamado.
O medo de número quatro a faz jogar o lençol no chão imediatamente e caminhar até a janela.
Seus pais saíram para comemorar o aniversário de casamento e Luísa ficou sozinha em casa. Ao mesmo tempo que ela queria dar um pouco de privacidade aos dois, a garota queria terminar de assistir o final do seu filme preferido.
O que ela não esperava é que o medo número três junto do medo de número cinco a fizesse se arrepender daquela decisão.
– Poxa, Lu! Achei que você fosse me fazer congelar aqui fora. – Augusto diz assim que a janela do quarto é aberta.
Augusto, ou Guto, como prefere ser chamado, é seu vizinho desde que os dois eram bebês. Luísa é um ano mais velha que ele, mas quando os dois estão juntos, não se percebe essa diferença.
Guto é o seu melhor amigo. Os dois estudam na mesma escola e por isso, é Guto quem garante a ela todas as manhãs que o medo de número dois não irá ocorrer.
O garoto passa uma perna e depois a outra na janela do seu quarto, batendo o queixo de frio, pela temperatura lá fora. A janela é fechada e ele esfrega as mãos nos braços com todos os pelos arrepiados, na intenção de aquecê-los.
– Você está sozinha, né?! – Augusto pergunta assim que para de bufar.
– Estou, como você sabe?
– Passei na garagem antes de bater na janela e o carro dos seus pais não está lá. Contornei a casa e só a janela do seu quarto está com a luz acesa. – Ele coça a cabeça enquanto pergunta. – Está com medo? Quer que fique aqui com você?
Augusto sabe de todos os seus medos. Não existem segredos entre eles. O garoto fez sua própria lista uma vez e o único item em comum era "Medo de brigar com a Luísa".
Ninguém entendia porque os dois eram tão grudados. Talvez fosse a obsessão da garota por jogos de tabuleiros e não por bonecas, assim como a obsessão do garoto por jogos de tabuleiros e não por carrinhos.
Luísa tem uma irmã mais nova que está dormindo na casa de uma amiga de escola e Augusto tem três irmãos mais velhos. Ela o inveja por isso todos os dias. A garota não se dá muito bem com sua irmã. Júlia é uma pirralha de sete anos que só sabe pegar no seu pé, garante Luísa a todos. 
Apesar do que Luísa acha, os irmãos de Guto não 100% maravilhas com ele. O garoto cansou de ser enxotado pelos irmãos e resolveu se refugiar com a vizinha, sua melhor decisão. A partir de então, os dois se tornaram inseparáveis, tipo Batman e Robin.  E, nessa questão, o medo número quatro acaba ocorrendo frequentemente, porque eles não conseguem decidir quem é o chefe e quem é seu fiel ajudante.
Os pais de ambos avisaram que a porta da frente estava sempre aberta para receber o outro, que não precisava nem bater, bastava entrar. As casas dos dois ficam lado a lado, em um condomínio fechado que permite que não seja necessário passar a chave na tranca da porta 24 horas por dia.
Apesar da permissão de entrada sem limites, os dois gostam mesmo é de pular a janela e fazem isso o tempo inteiro.
Então, quanto Guto ouviu o barulho do vento, saiu de pijamas do seu quarto pela janela, atravessou o quintal que divide as duas casas e bateu na janela do quarto da vizinha.
– Você quer jogar alguma coisa para esperar o tempo passar?
– Ai Guto, não quero não. Qualquer jogo que jogarmos você vai ganhar, porque não consigo me concentrar. Você sabe como eu sou competitiva.
E o garoto sabia mesmo. Tanto que algumas vezes deixa Luísa vencer para não evocar o medo número quatro.
– Tenho uma ideia. Vamos ouvir música? – O garoto pergunta assim que vê os fones de ouvido de Luísa em cima do seu criado mudo.
Recentemente, Augusto descobriu uma nova paixão: rock pesado. Até pediu aos pais de presente de natal uma guitarra. Ele garantiu que aprenderia a tocar sozinho, auxiliado por vídeos na internet e de revistas de banca.
Seus pais cederam ao desejo do filho, apesar do desespero dos três irmãos mais velhos que diziam que como músico, Guto era um ótimo escritor.
A obsessão era tanta que em toda oportunidade, Guto fazia Luísa ouvir a sua playlist do momento. Sua intenção era fazer com que a garota se apaixonasse por música e o acompanhasse aos festivais que ocorrem na cidade, assim que eles tiverem idade suficiente para frequentá-los.
Luísa aceita a proposta.
Não porque estivesse querendo ouvir músicas.
Não porque não quisesse brigar com Augusto.
A garota aceita a proposta porque não quer ouvir o barulho do vento.  
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Brincando com intertextualidade, rs. 
Este é um trecho do livro citado em Tudo o que poderia ter sido.

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